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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

CARNAVAL – FESTEJAR OU NÃO? VOCÊ DECIDE!



Quando Carmem Miranda cantou Camisa Listrada, musica carnavalesca de sucesso em 1937, certamente não imaginava que estava se tornando predecessora da maior festa popular do mundo moderno: o carnaval brasileiro. Também não podia prever que, sobre os mitos gregos, romanos, africanos e indígenas, nossos foliões montariam o mais engenhoso atrativo turístico da atualidade, levando às ruas mais da metade da população do país, num requebrar frenético, endoidecido de alegria, embora superficial e passageiro.
Carmem Miranda e Assis Valente (o autor da musica) agiam sob o regime de uma cultura que desejava expressar-se publicamente, invertendo valores da rígida moral da primeira metade do século XX. Desde o nascimento de Dionísio, inventor do vinho segundo a mitologia grega, as festas dionisíacas, ou bacanais para os romanos, seguidores dos prazeres da carne, desejam ampliar os limites do comportamento social e soltar-se, ignorando as fronteiras do bom senso e da ética, o que se torna possível numa festa que mistura elementos da religiosidade, paganismo, sexo, exibicionismo e o esquecimento do compromisso com os padrões da moral e dos bons costumes.
No Brasil, a festa além de homenagear os velhos deuses da Grécia e outras nações, absorveu elementos da religiosidade afro e indígena, fragmentando-se em diversos ritmos regionais, marcados pelos tambores e oriundos dos rituais de invocação dos espíritos e incorporação dos médiuns. Ainda hoje, o santo baixa em plena avenida e muitos dançam e sambam sob o comando do seu guia, obedecendo sua determinações em termos de fantasia, comportamento, comidas e bebidas. Quem desejar ter uma ideia mais completa do carnaval brasileiro deve ficar atento ao aspecto religioso dessa festividade e o que ela engloba do catolicismo romano, do africanismo (gegê-nagô), e de manifestações de folclores regionais tais como o frevo, o maracatu, a congada, as cavalhadas de Goiás e outros similares.

ORIGEM
É impossível afirmar-se com certeza a origem de um fato histórico perdido no tempo e no longo distanciamento dos séculos. Entretanto, historiadores, etimologistas, sociólogos e antropólogos esforçam-se para trazerem à luz acontecimentos de um passado longínquo, como as primeiras manifestações tidas como antecessoras dos carnavais. Algumas correntes localizam os primeiros passos dessa dança nas festividades que homenageavam Dionísio na antiga Grécia. Ouros dizem que tudo começou no Egito e, ainda, há quem garanta uma origem mais remota: no alvorecer da civilização, na mesopotâmia.
Controvérsias à parte, a verdade que interessa nos diz, sempre, que uma pratica nascida do paganismo, seja egípcia, grega ou africana, não pode ser condizente com o cristianismo genuíno, fundamentado naquilo que dizem os textos sagrados que norteiam a conduta de seus praticantes, ficamos com a tese de origem mais conhecida dessa festa, localizando-a na antiga Grécia, um festival em honra dos deuses Dionísio e Cronos.
Na mitologia, Dionísio era filho de Zeus, o Deus maior do panteão grego. Zeus, como todos os deuses, se irritava facilmente, sujeito a explosão de temperamento. Viva amasiado com Sêmele, que era mortal, princesa de Tebas. Dessa união nasceu Dionísio, um menino bonito que foi criado numa caverna assistido pelas ninfas e os sátiros. A lenda diz que Zeus havia causado um incêndio no palácio de Sêmele ao aparecer por lá em sua forma divina de raios e trovões. Grávida, a moça não pôde livrar-se das chamas e morreu. Percebendo a tragédia, Zeus retirou o filho do ventre da amante e o colocou em sua própria coxa para terminar a gestação. Daí o nome Dionísio, que quer dizer nascido duas vezes.
Diz o texto mitológico que Dionísio foi feliz em sua infância e adolescência. Depois de adulto, tornou-se plantador de uvas, atividade em que, espremendo algumas frutas acabou descobrindo o vinho. Tomou um porre e viu que a bebida trazia euforia, provocava um frenesi, uma alegria indescritível que levava a pessoa ao desejo de dançar, cantar e rir até o delírio, uma consequência natural da ingestão daquela miraculosa bebida.
Depois de muita festa, vinho, alegria e danças, Dionísio volta a Grécia e ali divulga a cultura do vinho. O povo grego, alegre por natureza, sempre ansioso por novidades, aderiu com facilidade à bebedeira, usufruindo ao máximo do que o vinho podia oferecer. Em pouco tempo, Dionísio se torna um deus cheio de vontades, arrogante e exigente, presidindo suas festas, ele não negava a bebida, desde que acompanhada de rituais dramáticos que contavam historias, faziam sacrifícios de bodes sob o ritmo frenético da música e danças sensuais. Dionísio, conhecido como Baco entre os romanos, enlouquecia mulheres e homens através do vinho, tornando-se senhor de seus sentimentos e ações, quase sempre, pouco recomendáveis às pessoas de bom senso.

ORIGEM NO BRASIL
Antes de chegar no Brasil, o que hoje é o carnaval, era conhecido como “entrudo” na Europa e, especialmente, em Portugal. Naquela época, a festa era mais recatada, sem o brilho de hoje, mas nem por isso, menos insinuante e apelativa ao sexo e a libertinagem sem rédeas, nem freios. Por volta dos séculos XVI e XVII o carnaval era carne levare, um termo criado para designar a véspera da quarta-feira de cinzas. Significava adeus à carne ou a abstenção da carne durante a quaresma.
A tradição europeia chegou ao Brasil timidamente no século XVII trazida pelos portugueses. Não entusiasmou muitos os nativos da pátria até meados do século XVIII, quando começaram as primeiras manifestações que descambariam numa festividade ampla algumas décadas depois.
Os primeiros passos para a longa caminhada do melhor carnaval do mundo aconteceu em 1840, com o primeiro baile no hotel Itália, na velha capital federal. A dança era ritmada por comportadas valsas, singelas quadrilhas e as habaneras, um tipo de dança muito apreciada na época. Em 1845 já se começava a perceber os efeitos da segregação racial nos bailes carnavalescos. Os ricos aderiram à polca tcheca, sofisticada, executada por orquestras de alto nível. Os pobres, particularmente os negros, dançavam o jongo, musica de ritmo ligeiro, próprio para acompanhamento de instrumentos de percussão. Em 1848 surge o primeiro bloco de rua, liderado pelo sapateiro português Jose Nogueira, o primeiro tocador de bumbo nas ruas do Rio.
No alvorecer do século XX, criaram-se os afoxés, embriões dos blocos carnavalescos, com uma batucada cadenciada e que chamava a atenção pelo fascínio do ritmo e seu poder de atração do publico. Depois desse período, houve um tempo sem novidades, o país passou por convulsões sociais, havia descontentamento politico, a economia não ia bem, estourou a guerra de Canudos e havia uma comoção geral. Passada a tempestade, as consequências não se fizeram esperar. Um grande contingente da Bahia veio morar no Rio de Janeiro, ocupando o Morro da Saúde e transformando-o na primeira favela do Brasil. Ali, na casa da tia Ciata, o famoso sambista Donga compôs o primeiro samba, em 1917, chamado Pelo Telefone.

INFLUENCIA AFRO – PRESENÇA DOS ORIXÁS
No Brasil, fundamentalmente, além de celebrar as bacanais de Grécia e Roma, o carnaval tem seus fundamentos fortemente concretados na herança dos cultos africanos aos orixás, sob o comando histórico do candomblé e seu ritmo, regidos pelos pais e mães de santo. O Rio de Janeiro é tido como Meca do carnaval, mas a festa não teve seu desenvolvimento por mãos cariocas. Muitos famosos serviram-se da habilidade de conhecidos lideres do africanismo baiano, migrantes da “boa terra” para as movimentadas ruas do Rio, mais precisamente, na Praça Onze, quartel general dos primeiros sambistas.
É importante saber, para aguçar a visão sobre o paganismo do carnaval, que a mais conhecida casa daquele logradouro público era um terreiro de candomblé, dirigido pela mãe de santo tia Ciata, baiana e pioneira dos modernos carnavais. Em sua casa, reuniam-se a nata do samba como Pixinguinha, Donga e Sinhô. Os batuques dos tambores varavam as noites, numa festa profano-religiosa em que a incorporação dos orixás ditava o ritmo, as comidas e bebidas. Foi dessas reuniões de samba e suor, que surgiram, em 1928, as escolas de samba (Deixa Falar, Estação Primeira de Mangueira, Vai como Pode), sem deixarem seus vínculos com as raízes nos terreiros e seus rituais.
A indústria do turismo, hoje, quer revestir o carnaval de rosa, colocá-lo ao alcance de crianças de tenra idade e apagar do seu meio a pecha de libidinoso, escandaloso, impróprio para consumo de quem faz do cristianismo um sacerdócio. Isso não anula o fato do carnaval trazer na essência do seu espetáculo a cultura dos cultos afros, onde o samba de roda baiano se misturou com a batida do samba da macumba carioca, e esta, com a ginga do samba de pernada praticada pela malandragem de outrora. 
Diz um artigo de revista que "a baiana típica de Salvador trouxe sua arte de preparar comida para os orixás e sua maneira exuberante de vestir-se usando colares, figas e patuás. Passou a exercer o seu fascínio sobre as populações negro-mestiças e a ser tratada como personagem do folclore pela cultura oficial" (Ano Zero, 1992, p 18). 
Para melhor avaliação pode-se observar o mundo psicológico da "baiana" antes de adentrar a avenida para mostrar a sua ginga. Samba é sinônimo de dançar no linguajar dos antigos kigongos, embora possa significar também rezar, implorar. "A filosofia do samba contém, magicamente, na mesma palavra, um comportamento não dissociado. Dançar não é, necessariamente, o contrário de rezar, mas é uma forma de se expressar com o corpo. A baiana leva o carnaval tão a sério quanto a uma religião. Não tem negocio de santo, mas tem muita fé e dedicação. A baiana se prepara para o desfile como se prepara para o candomblé. Não existe improvisação porque a fantasia está ligada a um sentido profundo do ritual seguido pela maioria dos praticantes" (Idem, 19).

COLABORAÇÃO CATÓLICA AO CARNAVAL
Incapaz de impor-se à festa pagã, acabar com ela e introduzir o cristianismo genuíno entre a massa ignara, o catolicismo romano, como era costume, preferiu observar uma atitude de tolerância a essa manifestação, incorporando-a ao calendário da Igreja no século XV. A partir de então, o carnaval, mesmo com toda a sua obscenidade, foi oficializado como a festa que antecede a abstinência de carne requerida pela quaresma. Algum tempo depois, autoridades eclesiásticas restringiram a celebração oficial do carnaval aos três dias que precedem a quarta-feira de cinzas. 
Com isso, a igreja Católica não pode ser acusada de ter instituído o carnaval, mas "o reconhece como fenômeno vigente no mundo em que ela se implantou e procurou subordina-lo aos princípios do Evangelho" (Defesa da Fé, 2001, P 20). 
O catolicismo romano “cristianizou” diversas comemorações e festas pagãs, com o objetivo de trazer os infiéis para suas fileiras. A História é sempre testemunha fiel de fatos que enaltecem ou envergonham a humanidade. No afã de proteger os cristãos (ao invés de ensinar-lhes a verdade), o clero católico acabou criando dúvidas entre seus praticantes que, inevitavelmente, passaram a desconhecer o limite entre o que o carnaval poderia ter de cristão e o que, na verdade, tem de pagão.
Observa-se que a ligação desta festa com o povo romano tornou-se sólida. Ao invés de suspendê-la deu-lhe uma característica católica. Itália, Espanha e França, países que sofreram forte influência da igreja romana, têm muito em comum na celebração do carnaval em suas culturas. Apesar dos séculos, a "cristianização" da festa da carne trouxe um exemplo visível da sobrevivência do paganismo até nossos dias, com todos os seus elementos presentes. Não é sem motivo que, escatologicamente, o paganismo e seus rituais estarão sempre presentes entre a humanidade até os finais dos tempos. O paganismo, com suas variantes ocultistas são apontados pela Bíblia como elementos desencadeadores do Juízo Final. 
Quando uma igreja que se diz herdeira da fé apostólica endossa uma festa essencialmente carnal e pagã, seus filhos se tomam órfãos.

REFUTAÇÃO BÍBLICA À FESTA DOS DEUSES 
A posição da igreja evangélica, independente da denominação, e que tem seus alicerces cimentados na verdade bíblica, não tolera, não incentiva e condena o carnaval como prática perniciosa à saúde espiritual dos cristãos. Não existe justificativa para o crente participar de uma comemoração carnavalesca, nem mesmo o argumento de que está no meio da folia para evangelizar. Tal postura é antibíblica, fere as ordenanças que proíbem a convivência entre os que não professam a fé verdadeira. Isso acontece porque o Espírito Santo não compartilha com as trevas e, com certeza, em meio a uma festa de carnaval, a luz de Deus não chega, não brilha nem indica o caminho desejável. 
Não fosse assim, Jesus estaria sendo incoerente quando disse: "O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida" (Jo 6.63). 
Um conhecido carnavalesco disse, à grande imprensa, que a festa era uma oportunidade única para extravasar os desejos da carne. "Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito" (Rm 8.5-8). Paulo fala da inclinação para a carne de maneira geral, não separando uma inclinação "santa" que seria própria de cristãos evangelistas em festas mundanas. O apóstolo ainda diz em 1ª Co 6.20 que os cristãos "foram comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus". Diz um ditado: "para o bom entendedor, um pingo é letra". Pode-se não entender um perigo, mas Deus disse ao povo de Israel: "Deixe o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamentos e se converta ao Senhor, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar" (Is 55.7). Em 1ª Co 15.50, Paulo alerta para o perigo da carnalidade, tema em que ele insiste em quase; todos os seus escritos. É bom meditar mais demoradamente nesse versículo: "E agora digo isto, irmãos; que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herda a incorrupção". Amém.

CONCLUSÃO: UM ENGODO SUTIL
Durante cinco dias (antigamente eram três), os adoradores de Dionísio (ou Baco), dançaram, beberam, brigaram, fumaram maconha, cheiraram cocaína e fizeram sexo sem fronteiras. Contagiados pela loucura do deus pagão, não se deram conta do equívoco da falsa alegria e de que a folia não trouxe nada além do que havia antes. É hora de voltar ao trabalho, à opressão econômica e social, à realidade das mortes nos hospitais públicos por falta de atendimento, ao desemprego e à violência que assombra e aterroriza. É hora de cobrir o altar dos deuses, tirar Momo do trono, voltar-se para a paixão, morte e ressurreição de Cristo e iniciar os preparativos para o ano que vem. 
Não é de se espantar que os carnavalescos se esbaldem em total liberdade com a ideia de que Cristo e Dionísio se equivalem. O primeiro é a essência espiritual, a representação maior do divino. O segundo, a expressão máxima da carne. Um muito distante dos pensamentos e do cotidiano da massa ávida pelo pecado e a luxúria. O outro, presente, insinuando, chamando, oferecendo o que o povo quer: alegria, risos, lágrimas...
Não é possível ao cristão convicto aceitar esse paralelo. Mesmo no universo psicológico coletivo, em que subsistem Cristo e Dionísio, pacificamente, o desencanto da quarta-feira não marca a volta ao cristianismo genuíno. Continua o reinado das superstições. Cristo é superficial nos corações onde reina a dubiedade entre o verdadeiro e o falso. Nem simbolicamente Dionísio pode ser comparado a Jesus. Ele (Dionísio) é uma lenda que pode existir na consciência mitológica, mas jamais substituirá o Salvador das almas como o Cristo crucificado e ressurreto. O deus grego é a vida dos instintos e se confunde com o mal e a escuridão, não ressurge, não salva almas do inferno, mas compactua a perdição com os demônios, ávidos pelos desejos da carne. Dionísio é a personificação de Satanás, o deus do inferno, estereótipo do mal.
Pode-se, com certeza, concluir que o carnaval é uma festa pagã, enaltece os pendores carnais, homenageia deuses da antiguidade, desvirtua padrões morais que norteia a conduta cristã e, entre outras coisas, debocha da ética, e rompe com os valores de conduta que alicerçam a sociedade. Por isso, o carnaval não é indicado para homens e mulheres que têm Cristo redivivo entronizado em seus corações. É a síntese de todo engano sutilmente colocado como a boa, fruta desejável aos olhos, mas de sabor amargo e totalmente indigesta. 
A cultura carnavalesca e seu sucesso como atração turística, orgulho nacional, não muda suas origens e consequências espirituais. Não se pode negligenciar as evidências que nos indicam algo que não nos serve e as festas em que o nome de Deus não é exaltado, nem dignificado, devem ser evitadas como procedentes do maligno, o verdadeiro rei Momo dos nossos carnavais.

Fonte: Festas Populares e suas Origens (S. V. Milton) - Série Conhecer - Editora A.D Santos



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